O árduo aprendizado do negócio próprio


 

 

Thomaz Caspary
Diretor da Printconsult

2007-05-15

 

Novas posturas diante da vida e muita disposição para enfrentar dificuldades de toda a ordem, fazem parte da iniciação na vida empresarial, principalmente na indústria gráfica.

 

 

Tornar-se empresário gráfico exige um “batismo de fogo” pelo qual, poucos conseguem passar com sucesso. Muitas vezes esse processo leva a um amadurecimento forçado, independente da idade ou da experiência profissional da pessoa que quer ter o negócio próprio. Ainda mais em países como Portugal, Espanha e outros, repletos de regulamentações e decretos. A iniciação na vida empresarial normalmente implica em uma avaliação de valores.

 

Pessoas que se habituaram a ver o mundo a sua volta sob a perspectiva de funcionários e operadores de máquina, sem maior envolvimento com os negócios da empresa como um todo, acabam percebendo que ser empresário é muito mais difícil do que parece à primeira vista. Há os que detectam logo cedo que, para montar uma gráfica ou bureau de pré-impressão, precisam antes se preparar adequadamente, tanto técnica, administrativa e psicologicamente, sob o risco de ver seu projeto fracassar levando a empresa ao buraco.

 

Mas a regra geral é que as pessoas “acham” que existe muita mistificação sobre a atividade empresarial. O “achismo” e a imaginação de que, ser dono de gráfica significa enriquecer rapidamente e poder mandar em tudo e em todos, é uma das primeiras crenças a cair por terra rapidinho.

 

Depois de pesquisar como iniciar uma empresa na indústria gráfica, junto a órgãos como a APIGRAF, os Sindicatos Gráficos, o ISEC, IPT, ESTT, IPP e muitos outros estabelecimentos de ensino, o funcionário de uma empresa gráfica, resolveu que ainda não era o momento adequado de virar empresário. Com experiência profissional muito baixa, na área da administração, percebeu que deveria trabalhar um pouco mais como empregado antes de se lançar num vôo próprio.

 

Na medida em que foi pesquisando, António (vamos chamá-lo assim) também mudou sua visão da actividade empresarial. Disse Antonio: “Percebi que ter uma empresa, não quer dizer que você vai poder fazer tudo o que imagina. Nesse processo, os sonhos vão caindo e aparece a dura realidade”, diz. “Ser empresário pressupõe a capacidade de gerenciar e lidar com as pessoas. Se você não entra nessa história com uma visão realista, acaba fracassando”.

 

Se para António o sonho pôde ser adiado, para João Almeida, viabilizar a própria empresa foi a única saída para contornar as limitações impostas pelo mercado de trabalho a pessoas de mais idade. Técnico Gráfico formado no Senai e com curso de Administração de Empresas, João Almeida trabalhou por quase trinta anos em áreas técnicas e administrativas de muitas gráficas.

 

Apesar de toda essa vivência profissional, a primeira tentativa de João Almeida de virar empresário, fracassou. No entanto, ele resolveu tentar de novo, com uma firma voltada ao desenvolvimento de presentes feitos no ramo da impressão em serigrafia, passando depois para a Tampografia, iniciando agora depois de alguns anos a introdução da impressão digital.

 

“Os microempresários não têm nenhum incentivo. O banco só empresta para quem tem dinheiro, e o empresário se sente até constrangido na frente do gerente”, admite. “Mas a maior dificuldade é mesmo a burocracia. Mesmo tendo vivência em empresas de pequeno e médio porte, foi difícil cumprir todas as exigências burocráticas e legais”.

 

João também sentiu na própria pele os efeitos que todos conhecemos, de um mercado altamente fechado. “Dependo do monopólio para comprar materiais. Como a minha empresa é nova, tenho que comprar tudo à vista. E, como compro pequenas quantidades, fico na mão dos atravessadores, que cobram muito mais caro pela matéria-prima”, indigna-se.

 

A vontade de João Almeida de crescer e viabilizar sua empresa ainda esbarra no pesado fardo dos encargos sociais. “Tenho muito trabalho e poderia estar repassando isso para outras pessoas, mas não posso pagar todos os encargos incidentes sobre o salário de mais empregados”.

 

“Como empregado, a minha única preocupação na época, era executar um trabalho da melhor forma possível, sem me preocupar com os outros problemas da empresa. E hoje tenho que atentar para todos os outros aspectos do negócio, como a procura de clientes e a administração do capital, que é pequeno. Mas mesmo assim me sinto muito bem pela opção que fiz”. “E o faria novamente”.

 

Esta é uma pequena história verídica de como reagem os “sonhadores” em ter a sua própria gráfica ou bureau de pré-impressão.Certamente aqui narrei, a história de muitos colegas gráficos que em determinado período de sua vida, assim começaram e, por causa de sua tenacidade, são hoje grandes empresários gráficos.

 


Thomaz Caspary é consultor de empresas e diretor da Printconsult Ltda. (11) 3167-6939. www.printconsult.com.br

 

 

 

 

 

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